
A ida à Casa Inês estava em espera praticamente desde que, em 2012, a Inês “do Aleixo” (assim se chamava, primeiramente, este estaminé) saiu da Casa Aleixo, regida primeiramente por seu pai e, após a sua morte, em 1980, pela viúva e os dois filhos e abriu este estaminé, na vizinhança. Na verdade, a filha do saudoso Sr. Ramiro, de cujas mãos saíram os pratos que tornaram a Casa Aleixo um ex libris da Invicta, trouxe consigo o saber e parte da equipa que ali trabalhava, pelo que não lhe terá sido difícil montar novo restaurante, mal arranjou espaço para tal, ali mesmo, em Campanhã, e muito perto do negócio de restauração familiar – de onde saiu no decurso de um desaguisado familiar “já antigo”, ao que conseguimos apurar (note-se o timbre jornalístico).
Ora, porque as opiniões que vamos lendo sobre a Casa Inês são tudo menos consensuais, achámos por bem levar os nossos sentidos a decidir em nome próprio: marcámos mesa para quatro, numa sexta-feira ao almoço e começámos por stressar com o estacionamento que, na vizinhança, não é fácil. Os outros comensais, sensatos e menos atrasados, estacionaram perto da estação e subiram a Rua de Miraflor; eu, no outro extremo da artéria, parei o carro de quatro piscas mesmo na Rua do Freixo, sobre traço amarelo, sujeita a uma multa que me deixaria de humor rasteiro – e, mesmo assim, quando me sentei, já as entradas estavam na mesa. (Só para satisfazer a curiosidade da caríssima freguesia, cumpre-me comunicar que tive sorte e não houve multa: de resto, até ao final da Rua do Freixo e desde a esquadra da Polícia da Rua do Heroísmo, há carros parados – parece que ali ainda não chegaram os reboques, mas eu não me fiaria muito nesta assumpção).
Antes de regressarmos às entradas, uma nota para o espaço: entrar na Casa Inês é ter o prazer de nos sentirmos num tradicional restaurante nortenho, com paredes de granito e candeeiros de ferro, as arcadas e os azulejos à portuguesa. Numa primeira sala, naquele dia vazia, os louceiros fazem companhia às compotas que são produção da casa e à garrafeira de tamanho médio. Na sala principal, um espaço amplo com cozinha semi-aberta (pormenor pouco tradicional mas que considero inevitavelmente simpático), domina a tijoleira e as mais variadas imagens de um Porto antigo; a luz é, contudo, demasiado baixa para o nosso sentido de gosto mediterrânico.
[bctt tweet=”…os croquetes de alheiras estavam divinos, muito por causa do molho, uma combinação feliz.”]Na mesa, à minha espera, os meus amigos e as entradas pedidas: os cestos de pão com pão bijou e uma broa de Avintes de chorar por mais (é que parecia bolo, a safada), as Sardinhas de Escabeche e os Bolinhos de Bacalhau com Feijão-Frade, para além de uma dose de Bolinhas de Alheira com Agridoce de Abóbora, que não pedimos mas nos foi trazida como sendo “um miminho da D. Inês” – e não, nunca nos identificamos como sendo Carapaus de Comida (aposto que a dúvida estava a surgir desse lado, certo?!). Confesso que a minha entrada preferida foi mesmo aquela de que havíamos prescindido aquando do pedido (só havia três disponíveis, embora normalmente haja também Rissóis de Pescada e Polvo em Molho Verde): os croquetes de alheiras estavam divinos, muito por causa do molho, uma combinação feliz; quando aos pastéis/bolinhos de bacalhau, estavam janotas (mas não como os da minha avó, que eram os melhores), embora eu não seja apreciadora de feijão-frade. Nota alta também para as sardinhas, cujo molho devorei, com o pão disponível.
Para beber, optámos por um maduro branco duriense, mantido fresco num balde de gelo e, como pratos principais, vieram quatro meias doses: uma de Filetes de Pescada com arroz branco para um (o acompanhamento normal é arroz de polvo, mas a troca é possível) e três de Filetes de Polvo, naturalmente com arroz de polvo, para os demais – de notar que normalmente haveria mais um prato de peixe (bacalhau), que naquele dia não se encontrava disponível, bem como um trio de pratos de carne (vitela e lombo de porco assados e bife da vazia), e não mais do que isto. Optámos ainda por pedir grelos salteados, que são pagos à parte de tudo o mais, já que os pratos não trazem qualquer tipo de vegetal.
[bctt tweet=”…registamos a Casa Inês como um restaurante obrigatório, ao menos uma vez na vida…”]E que dizer? Estava tudo bom: os filetes, tanto de polvo como de pescada são unos mas de tamanho generoso, capazes de satisfazer um apetite médio. O arroz é na quantidade bastante mas, mais uma vez, não sei se cumpriria os requisitos de quantidade de um estômago avantajado, com a tarde livre. Os sabores são muito agradáveis e produto de um saber de experiência feita (e muita especialização, já que a ementa, como disse, não se dispersa de todo) mas, não poderia deixar de dizê-lo, os preços praticados são puxadotes, não só para o que se serve como para a hora de almoço: não ficaria mal à Casa Inês acrescentar à lista um menu de almoço (ou “menu executivo”, para ser modernaça), que permitisse aos apreciadores visitar mais vezes uma chafarica onde uma refeição como a nossa ficou por (adianto já) 25€ por estômago.
Quanto às sobremesas, que nos foram receitadas de cor por um empregado afável, cuidadoso e experiente, a diversidade e a originalidade também não moram ali, pesem embora os trunfos valiosos que constituem as famosas rabanadas e a não menos gabada aletria. Ora a grande maçada é que eu não aprecio nem umas nem outra – de resto, nenhuma das sobremesas me encantava à partida, pelo que resolvi apostar na musse de chocolate (que, ali, não poderia ser má), tal como fez o T.; já o D. foi mesmo na rabanada e a R. dispensou o doce próprio e provou daqui e dali. Quanto à rabanada, o D. diz que estava boa, sim senhores, mas também esclareceu ser “um fácil com rabanadas de restaurante”, pelo que não somos de grande auxílio; a musse estava especialmente boa e amanteigada, como eu gosto. Curiosa foi a atitude do funcionário que nos serviu que, sempre diligente, fez questão de nos trazer a afamada aletria (“só uma noz dela”, disse – para depois servir um prato cheio); e, francamente, ainda que nenhum de nós seja apreciador, foi fácil perceber, porque todos fizemos questão de a provar, que estávamos perante uma especialidade, de textura aveludada, amarelada dos ovos, macia de bem cozinhada e com forte travo a canela, como se quer. Ainda assim, era aletria e nenhum de nós foi além de uma colherada – mas aposto que fará as delícias dos apreciadores.
E pronto: mais leves em 25€, registamos a Casa Inês como um restaurante obrigatório, ao menos uma vez na vida, por parte de quem se delicia com cozinha tradicional portuguesa; dada a pouca variedade da carta e os preços praticados, infelizmente, não será muito mais do que isso.
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