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Carapaus de Comida

Solar Moinho de Vento, Porto

Crítica de Ana Andrade, 21 de outubro de 2016. Comida Portuguesa

Há já algum tempo que, de passagem pela Rua Sá de Noronha, dizíamos que, quando o tempo arrefecesse, marcaríamos um dos nossos almoços quinzenais ou mensais (depende das alturas) na Baixa para ali. Não sei por quê, mas era consensual entre as três que o Solar Moinho de Vento era coisa para nos saber melhor quando fosse Outono, talvez porque a oferta gastronómica é mais na onda do tradicional português, talvez porque o espaço nos parecia escuro, visto de fora, e não queríamos desperdiçar raios de sol, quando o havia. A verdade é que, depois das férias, o primeiro almoço foi mesmo ali, num dia em que chovia até mais não (e isto não previmos, deve ter sido São Pedro a castigar-nos pelo atrevimento dos planos tão antecipados: “ai querem Outono? Então peguem lá.”).

Não sei bem porquê, as três ficámos bem impressionadas com o interior, que é bem mais acolhedor e bonito do que imagináramos: no andar de baixo, a cozinha e dois grandes balcões onde encontramos fruta, alhos secos, bem como um punhado de mesas pequenas; ao fundo, à direita, a escada que nos leva ao andar superior, com mesas redondas e quadradas ou retangulares, e alguns elementos de decoração interessantes. As paredes também estão revestidas de desenhos de pedaços do Porto e alusões ao estaminé, na imprensa.

Pelo sim, pelo não, a mesa foi reservada, ainda que creia que, numa terça feira de outubro, pelas 13h, não teria sido impossível encontrar mesa, numa incursão espontânea; mas assim ficámos junto a uma das janelas (da frente virada para a Rua Sá de Noronha, já que a outra dá para o Café Progresso), o que nunca é infeliz. O único senão foi estarmos debaixo de um aparelho de ar condicionado demasiado fresco, que a RV pediu para ser desligado.

À nossa espera, na mesa, encontrava-se já um cesto de pão com ar apetitoso (de que só a RV provou um nadinha), azeitona miúda (de que não sou apreciadora), azeite e presunto que até a mim (a “saleira”) pareceu excessivamente salgado – mas não provámos o que quer que fosse, porque ao almoço somos todas bem mais comedidas.

No que toca a pratos principais, fomos as três para os de peixe (embora o arroz de costelinhas e moura também me tenha tentado): a JSS quis os Linguadinhos Pequenos Fritos, servidos com Arroz Malandro do Dia (mas pediu para lhe substituírem o arroz por legumes, o que foi prontamente aceite), a RV foi nos Filetes de Pescada Fresca, servidos com Arroz Malandro do Dia, e esta vossa criada, tendo querido primeiramente a Petinga, achou por bem optar pelo Arroz de Polvo Malandrinho. O funcionário que nos serviu fez um nadinha de confusão com os pedidos, embora (como veem) só da JSS tivesse uma alteração; por outro lado, disse-nos que o arroz do dia era de tomate, quando afinal veio a ser de feijão – o que não fez diferença, porque a RV gosta, mas teria feito comigo, que não sou apreciadora.

De resto, estava tudo bom, sobretudo o polvo: super-macio, nacos grossos, arroz bem cozinhado; os filetes (um grande e um médio) também foram gabados, embora a RV os achasse um nadinha salgados, o que acabou por ser equilibrado pelo arroz, que não o estava; os linguados da JSS mereceram aplausos pela qualidade e apupos pela quantidade: eu teria ficado faminta só com aquelas três pecinhas. Eu e a RV acabámos por ter de pedir uma salada mista (pobremente temperada, quanto a mim), porque nenhum dos pratos traz legumes, o que me parece dado a reconsiderar.

Aquando das sobremesas, que nos foram recitadas pelo funcionário, na ausência de lista, preterimos (e refiro de cabeça) as mousses de chocolate e oreo (não me lembro do resto, mas havia mais umas três coisas) e quedámo-nos pelo leite-creme, depois de nos termos assegurado de que que era queimado na hora. E foi, de facto: o maravilhoso cheirinho a açúcar a caramelizar antecedeu a sua chegada à mesa mas a prova foi uma desilusão, porque o creme estava frio e pouco cremoso.

A conta chegou e colocou-nos perante o maior inconveniente deste Solar: os preços. 16,50€ por estômago, sem vinhos (foram pedidas uma Cola e uma água) e só com duas sobremesas (a RV passou esta etapa) pareceu-nos excessivo e desadequado. Come-se bem e barato aqui pela Invicta e é fácil encontrar meia dúzia de estaminés ali mesmo, nas redondezas, que nos dariam a comer o mesmo, por pouco mais de metade do preço, à hora de almoço – e este é um dado decisivo para que dificilmente venhamos a regressar.

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