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Carapaus de Comida

Casa d'Oro, Porto

Crítica de Ana Andrade, 29 de janeiro de 2016. Comida Italiana

Parece impossível que nunca aqui tenhamos falado deste estaminé, detentor do único nome que lhe faz jus: que outra designação para um restaurante situado em plena Rua do Ouro, já resvés com o Rio Douro? Como curiosidade, o espaço, feio que dói, de um ponto de vista estético amador (como o meu), tem a carga histórica de ter sido o abrigo dos engenheiros que erigiram a Ponte da Arrábida – e, quanto mais não fosse, só por isso, tem carradas de pinta. Dividido por três andares (o do rés-do-chão, onde se é recebido e se paga, o do meio e o cimeiro, com uma esplanada imperdível em dias de sol), o Casa d’Oro compensa em raça (e paisagem) o que aquele bloco de betão à beira rio não promete, à primeira vista.

Especializado em gastronomia italiana (tal como os seus manos Casanostra e Casanova, da mesma proprietária e sitos a Sul), oferece uma carta diversificada (que pretende cobrir todas as regiões do país) , sem fugir às tradicionais pastas e pizzas, que continuam a ser uma das minhas preferências de sempre.

Nós chegámos com fome da bruta e, talvez por isso, notámos a demora do serviço: ainda que o restaurante estivesse bastante composto, esperámos demasiado tempo quer pela entrada (Bruschetta com Pasta de Azeitonas) quer, sobretudo, entre ela e os pratos principais: uma Pizza Funghi (tomate, mozarela, cogumelos e orégãos) e Salciccia Napoletana (salsicha napolitana fresca com feijão), que demoraram o que nos pareceu uma eternidade a chegar, apesar de haver dois empregados só para o piso onde estávamos – o que me leva a crer que o problema resida na cozinha, de onde as coisas vão chegando por meio de um elevador com que nos deparamos no cimo da escada.

Resmunguices à parte, a verdade é que, se a bruschetta não me encantou de todo (pasta de azeitona preta sobre duas fatias de pão branco tostado mas pouco fresco e com um cheirinho de manteiga é muito menos do que esperava), a pizza de cogumelos estava francamente boa, na sua simplicidade – e eu cada vez aprecio mais pizzas com pouco (mas bons) ingredientes, de massa tão fina e crocante quanto possível. Esta não me desiludiu nem um bocadinho e foi degustada até à última migalha. Já a salsicha napolitana não encantou o PR (nem a mim, que não quis prová-la): não pode dizer-se que a descrição não seja absolutamente rigorosa, mas havemos de convir que uma salsicha pousada num mar de feijão branco (aquele de que menos gosto) não é propriamente o que se espera de um prato pedido num restaurante – francamente, pareceu-me mais algo que eu teria amanhado nos meus tempos de estudante universitária deslocada, caso gostasse de feijão.

Os graus de satisfação eram, por tanto, diversos, de um e de outro lado da mesa – mas a paisagem ajuda a atenuar o que quer que seja: era tarde solarenga de princípios de Dezembro, estávamos sem casacos e havia muito rio para descansar o olhar.

Ainda assim, não desisti da prova: o PR prescindiu da sobremesa (haveria de debicar um nadinha da minha, só para me “ajudar”) mas eu não sairia dali sem provar o tiramisu – que, contudo, não se revelou a melhor das escolhas, sobretudo para quem esteve duas vezes em Itália no último meio ano e os saboreou boníssimos. Este tinha demasiado pão-de-ló e o creme não estava, claramente, acabado de fazer – mas comeu-se sem problema, que o que é doce nunca amargou (já dizia a avó M.).

No final, que prolongámos com um cafezinho (o sol estava demasiado bom para lhe virarmos costas sem mais), veio a conta, que se traduziu em cerca de 15€ por estômago: os apetites podem não ter sido homogéneos ou os melhores do mundo, mas está-se muitíssimo bem na Casa d’Oro e é sítio a voltar, com certeza.

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