A descoberta foi da RV, que experimentou a coisa com um grupo de amigos: falo do Restaurante da Escola de Hotelaria e Turismo no Porto, sita na Rua da Firmeza (já mesmo a chegar a Santos Pousada, do lado direito), que é um daqueles sítios de que pouco se fala mas que temos o maior dos gostos em divulgar, porque o que é bom (e barato, por Pantagruel, tão barato!) deve ser conhecido.

A ideia é simples: trata-se de uma escola de hotelaria, com cursos de cozinha e de serviço de sala (entre outros), onde os alunos treinam a sua arte, que servem no Restaurante Pedagógico, para desfrute do público em geral (desde que com marcação prévia). A sala do restaurante, com capacidade para cerca de 50 pessoas, é agradabilíssima: tem imensa luz, as mesas são quase todas redondas e a decoração é sóbria e elegante (e vai sendo alterada, de acordo com a temática das refeições, quando se trata de refeições temáticas). O melhor é mesmo o prazer de estarmos a ser servidos por quem está a ter formação específica para tal, o que se nota a cada passo: no segurar da cadeira para que nos sentemos, na elegância com que se serve e levantam os pratos e as bebidas (sempre pelo lado correcto), no cuidado em explicar como se processa a refeição e na atenção aos momentos certos, seja para abordarem os clientes, seja para levantarem um prato e trazerem nova iguaria, seja para servir as bebidas.

A Mesa

Eu e a CP aproveitámos um almoço que tínhamos combinado há séculos e tivemos a sorte de acertar num dia de exame final do curso de cozinha, em que o repasto foi (provavelmente) ainda mais cuidado: havia alunos na confecção das cinco etapas, outros a servir com os colegas da área e outros, ainda, a explicar cada passo aos comensais que haviam escolhido ali ir naquela terça-feira de muito sol – todos vestidos a rigor e de acordo com as funções que lhes haviam sido atribuídas. Depois de nos termos instalado, conduzidas que fomos à nossa mesa pela aluna que simpaticamente nos recebeu, e de nos ter sido entregue um menu do qual constavam apenas os nomes de cada prato, um aluno fez o favor de nos explicar o conceito que subjazia à refeição e a cada prato: o tema era o Atlântico e a inspiração proviera de quatro arquipélagos – Madeira, Açores, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. E nós, entusiasmadas, escolhemos o vinho e preparámo-nos para desfrutar.

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O amuse-bouche, designado Brisa do Mar, consistia em ouriço-do-mar em gelatina de menta – e que bom que estava, cheirava e sabia a mar (mas não agradou às duas de igual modo, a CP achou que poderia ter mais sabor), parecia que estava na praia, a apanhar sol depois de uma boa banhoca, a apreciar as pingas de água salgada que me corriam na cara.

Depois, tivemos Levadas da Madeira, prato inspirado no Arquipélago com o mesmo nome, que era basicamente bife de atum (divino) temperado com uma espécie de maionese de wasabi (e menos picante, por isso, mas igualmente saboroso) em bolo do caco – e eu, que nunca comi um bolo do caco no Continente que fizesse jus ao tradicional madeirense (se calhar, porque tudo me sabe melhor por lá), adorei este, tostadinho e fresco, uma maravilha. Com o pão, foi servida uma poncha de maracujá deliciosa: o recipiente era mesmo a casca do fruto e o interior misturava aguardente de cana com o seu sumo – coisa deliciosa e mata-bicho, daquelas que se sentem  garganta abaixo e que nos faria sair de lá a cantar o fado, caso fosse servido em quantidade superior.

O Amuse-Bouche

O terceiro prato, Pérolas do Oceano, tinha a marca do Arquipélago dos Açores e consistia num fino filete de robalo, com a pele crocante ao lado (maravilhosa), meio lagostim e banana pão – mais uma vez, corro o risco de me repetir, porque a minha terminologia é nada técnica: pazinhos, estava bom. Mesmo bom, sabem? A sensação de provar um prato cujo sabor se desconhece (ou nem sequer se prevê, era mais isso) e sentir empatia imediata com o que se saboreia é impagável – e o Restaurante Pedagógico tem (para além de outras) essa enorme vantagem.

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Por (pen)último, e antes da sobremesa, o Gueixo, inspirado em Cabo Verde: um naco de novilho tenro e saboroso, no ponto em termos de tempero (sal, apenas, que é o que carne da boa deve levar, sem mais) e de cozedura, sobre puré de inhame, acompanhados por um confitado de chalota e língua (e sim, eu odeio língua, tout court, mas por isso é que jamais rejeito o que quer que seja, em termos gastronómicos sem provar: esta junção era absolutamente divina).

Finalmente, a sobremesa, com o infixável nome de Gota-Begá, alusiva ao Arquipélago de São Tomé e Príncipe: aquela mescla tinha de tudo, de gelado de rum a crumble, de bolo de rum a chocolate, de banana caramelizada em citrinos a um mini-bolo de chocolate – tudo acompanhado por umas mini-garrafas de vidro com uma mensagem inserida, um toque criativo e interessante. Ah, e tudo quanto era doce estava bestial, igualmente, e na quantidade certa.

O Gueixo

Finalizámos a coisa com um café e pagámos menos de 14€ cada uma, o que é absolutamente alucinante: o menu, que é composto pelos cinco pratos descritos, custa 8€ fixos, sendo que as bebidas são pagas à parte (só o vinho – escolhemos um Periquita tinto – custava 8,50€ e ainda pedimos meio litro de água e cafés). Ora tendo em consideração que fomos servidas e consideradas como muitos restaurantes tidos como de luxo não sabem fazer (o cuidado foi continuado, as explicações entre cada prato algo tímidas mas rápidas e pertinentes e os sabores muitíssimo bem conseguidos), isto é quase de borla, garanto-vos.

Espero, por isso, que os alunos finalistas do curso de Cozinha tenham tido uma nota alta: da nossa parte, estão passados com distinção e louvor, isso é certinho. E quem quiser ir desfrutar não do mesmo em termos de refeições, naturalmente, mas do imenso talento que nos é oferecido a baixo preço, é favor consultar as ementas semanais aqui e/ou, se pretender, receber a newsletter com essa e outras informações, adicionando-se à mailing list aqui – temos a certeza de que, se forem de boa boca, como estes vossos fiéis Carapaus, vão adorar.

Aqui ou noutros sítios quaisquer, só não se esqueçam dos bons apetites!

Escola de Hotelaria e Turismo do Porto

Morada: Rua da Firmeza, 71, Porto
Telefone: 220 044 800
Horário: Seg a Sex (Almoço) – 13h às 15h | Jantares mediante disponibilidade
Aceitam reservas? Sim (Obrigatório)

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6 Comments

  1. Foi um verdadeiro repasto! Efectivamente todos os pratos, com a excepção do amuse-bouche (que não me encheu as medidas), eram dignos de um restaurante conceituado. A repetir certamente.
    Claúdia

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