Reitoria | Santini Porto | Carpaaus de Comida

Restaurante

Reitoria | Santini Porto

21 Ago , 2015   Galeria

Uma das regras de ouro deste Cardume (e das poucas que pré-estabelecemos), desde que iniciámos funções, há já três anos e meio, é a de jamais aceitar visitar um restaurante a convite dos proprietários ou gerência: antecipamos que, se o fizéssemos, sentir-nos-íamos condicionados na apreciação, por mais isentos que tentássemos ser, já que custa fazer uma apreciação menos boa de quem foi uma simpatia connosco, recebendo-nos no seu domínio e oferecendo-nos o que é seu. Vai daí, sempre que somos contactados neste sentido, recusamos gentilmente, explicando as nossas razões, que sempre foram bem acolhidas.

Todavia, a posta de hoje corresponde a uma espécie de cedência da nossa parte, embora não o seja: recebemos um convite (em forma de voucher) da Zomato (a aplicação/site que nos diz tudo sobre onde comer bem, a partir das apreciações de quem entenda partilhar as suas experiências), para irmos ao Reitoria provar o menu de degustação (bebidas excluídas), em dia a marcar por nós, até ao final de Julho – e tratámos logo de fazer a reserva, pois claro. De resto, foi neste momento que a experiência neste estaminé se revelou menos positiva: aquando do primeiro telefonema, quem nos atendeu não sabia o que era a Zomato, garantiu-nos que não tinham menus de degustação e que muito menos faziam reservas no piso térreo (no primeiro andar funciona uma steak house, com um nível de preço superior, onde é normal marcar mesa). Pior: essa mesma funcionária ficou de ir saber de que se tratava e ligar de volta – mas a verdade é que, passados dois dias, fui eu quem ligou, já danada com o silêncio do lado de lá. Desta feita, atendeu-me um senhor que, não sabendo do que se tratava, foi mesmo resolver o assunto e ligou-me nem uma hora depois: estava marcado sim senhores e até me foi adiantado que poderíamos escolher o que provar, do menu disponível, ou esperar que nos trouxessem o que nos aprouvesse.

Ou seja, e para concluir o raciocínio inicial: fomos jantar a convite, sim, mas não do restaurante, que nem sequer sabia quem éramos, mesmo porque não somos propriamente estrelas pop.

À chegada, mais uma vez, a confusão: “ah e tal, não pode ter marcação que nós não reservamos mesa no rés-do-chão” – juro que não revirei olhos mas tive vontade (parece-me falta de chá não rectificar o erro inicial). De todo o modo, não faltou simpatia e foi-nos dada a escolher uma mesa em qualquer dos espaços, que são três: a explanada exterior, que dá para a Rua Sá de Noronha (que desemboca na Praça Gomes Teixeira, onde fica a Reitoria da Universidade, que não será alheia à designação do estaminé que visitávamos), o espaço interior, junto ao balcão onde se fazem as focaccias por que o Reitoria (também) é famoso, e a esplanada interior – escolhi esta, por ser um charme.

Exactamente ao mesmo tempo que o AV (que chegou um nadinha depois de mim) se sentava, chegavam as primeiras iguarias: duas focaccias, de rosbife e mortadela, cortadas a meio, que foram rapidamente deglutidas – estavam saborosíssimas, com carradas de rúcula (que eu adoro). A seu respeito, dividimo-nos na apreciação, já que eu preferi a de rosbife e o AV gostou mais da de mortadela. A acompanhar, a nossa bebida de eleição: cerveja de pressão, pois claro, que neste caso só pecou por ser Heineken – mas estava fresca, pelo que se bebeu.

Depois, vieram os ovos rotos, prato que consiste numa cama de batata frita e cogumelos salteados, na qual repousam dois ovos estrelados e salpicados com ervas frescas – o AV trinchou e a coisa soube-nos pela vida. Simultaneamente, apareceu um pratinho de mozarela de búfala com o que nos pareceu tomate-chucha-cherry (isto existe?), cuja frescura e sabor acabaram por ser parelha ideal para o prato de ovos.

Após uma pausa muito breve, surgiram, concomitantes, um prato com cachaço de porco com batata corada e um outro com vazia australiana, acompanhado de batata frita. Eu gostei de ambos, embora concorde com o AV em dois pontos, a saber: (i) o cachaço bateu todos os pontos em termos de sabor, por um lado (estava soberbo!), e (ii) a vazia australiana, sendo carne da boa, tinha um gosto fumado excessivo – e isto é um juízo de gosto pessoal, que em nada macula a qualidade da carne. Ainda assim, a gordura bovina não estava bem cozinhada, o que é uma pena para quem, como nós, adora um bom naco de lípidos em bruto.

Nesta altura, a pausa pareceu-nos maior, pelo que suspeitámos que se havia acabado a degustação (que não esgotou os pratos disponíveis no piso térreo), embora ninguém no-lo tenha anunciado; com efeito, quando um dos funcionários que simpaticamente nos serviu nos perguntou se havíamos terminado, a ambos assolou a vontade de retorquir: “não sei, diga-nos o senhor”. Mas portámo-nos bem e acenámos com a cabeça afirmativamente, enquanto aceitávamos o menu de sobremesas. Antes de pedirmos, contudo, sentimo-nos na obrigação de perguntar se o doce faria parte da oferta – não que deixássemos de o pedir, se tivéssemos de o pagar (embora tivéssemos segunda sobremesa marcada para depois), mas creio que numa situação destas é obrigação do restaurante deixar as condições bem claras ao cliente.

Uma vez obtida a confirmação, pedimos o que já escolhêramos: Demi-Cuit de Chocolate e Gelado de Framboesa para mim e Panacota de Baunilha, Encruado de Chocolate e Coulis de Frutos Vermelhos para o AV. Ambos estavam divinos, dentro do seu género: o Demi-Cuit (que é um fondant, basicamente, como o nome indicará) estava no ponto de cozedura e de açúcar, fazendo o contraponto perfeito ao gelado de framboesa (caseiríssimo!) numa cama fina de crumble: a Panacota, talvez por ter a tal base encruada de chocolate, estava divina, também ela (porque a panacota em si é coisa sensaborona, se não for bem acompanhada – e esta era-o).

Após um café, veio a conta (que se resumiu às bebidas) – e que bem que nos soube pagar tão pouco: 4,50€ por estômago (e não os 3,50€ que a conta indicava, porque se haviam esquecido de registar um fino) e não se falou mais nisso. Minto, até falou: no trajecto que separa o Reitoria da zona das Cardosas, onde está a filial portuense da Santini, não falámos de outra coisa, porque gostámos muito do que comemos e ficámos cheios de vontade de regressar, para uma incursão no piso cimeiro.

E porque hoje a incursão é dupla, peço desde já o perdão antecipado dos aficcionados da Santini: este Cardume que vos escreve sofre do incomensurável e condenável defeito de não apreciar o que ali se serve e, não fora a obrigação bloguística (e, sobretudo, as vontades do RF e do F), não teríamos visitado este novo local de peregrinação – francamente, a coisa está aberta há um mês e a fila continua a ser até à porta, num dia útil e às dez e meia da noite?!

Não nos entendam mal: ambos apreciamos gelados, cada um no seu género (o AV gosta de taçalhões como os da La Copa e da Sincelo, eu atiro-me para os Häagen Dazs e Ben & Jerry’s da vida, ou para os sabores mais enjoativos possível da Spirito e da Amorefrato), mas nenhum de nós rejubila com o que a Santini tem para nos dar – que achamos de qualidade, sim senhores, mas não necessariamente melhor do que outras geladarias oferecem.

E lá estivemos, na fila, cerca de meia hora, tratando de apreciar a decoração e a restante oferta: ali se vendem bombons gelados que nos pareceram muito bem (mesmo porque tive a sorte de provar um, de maracujá e chocolate), bem como auto-designado “o melhor bolo de chocolate do mundo” (e não, também não achamos que seja). Também se serve chá Kusmi, o que é relevante para quem, como eu, adora o contraste do gelado com uma bebida quente, sobretudo no Inverno.

E pronto, comemos o que tínhamos de comer: marabunta (o nome que eles dão à straciatella) e noz para mim, baunilha e chocolate para o AV (lá está, as frutinhas não são a nossa onda). E fomos vendo, sem paixão, o que comiam os nossos acompanhantes: morango, maçã riscada, meloa, pêssego e tal. Uma coisa é certa: o cone é dos melhores de sempre – estão a ver como sabemos dizer bem mesmo do que não apreciamos? – e o espaço airoso, limpo e convidativo.

Mas nenhum de nós voltará ali, tal como eu nunca entro no estaminé do Chiado, quando lhe passo à porta: não temos de gostar todos do mesmo, o que não belisca a assumpção de que se tratará de coisa boa, ainda assim.

Reitoria

Morada: Rua Sá de Noronha 33, Porto
Telefone: 222 011 463 | 927 608 628
Horário: Dom a Sáb – 12:30 às 23h
Aceitam reservas? Sim

No Zomato
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Santini Porto

Morada: Largo dos Lóios 17, Porto
Telefone: 213 468 431
Horário: Dom a Sáb – 11:00 às 24h
Aceitam reservas? Sim

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Ana Andrade

Ana Andrade

Agridoce, de tempero forte e gargalhada salgada.
Ana Andrade

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5 Responses

  1. Anónimo diz:

    A Santini é uma das minhas gelatarias portuguesas favoritas, e parece-me que a vossa menor empatia se poderá prender (pelo menos) em parte com os sabores escolhidos. A meu ver, onde a Santini brilha é mesmo nos gelados à base de fruta, mas especialmente no de morango (o melhor que já comi) e também no de framboesa.
    Se decidirem dar uma nova oportunidade, experimentem um destes sabores, ou pelo menos o morango, e depois digam se se arrependeram!

    E continuem o bom trabalho!

    DF

    • Ana Andrade Ana Andrade diz:

      Olá, DF!
      Na verdade, escolhemos os únicos sabores que nos sabem bem por lá, nenhum de nós aprecia os tais gelados de fruta que fazem os seus(e de toda a gente) encantos. Pessoalmente, conheço a Santini desde sempre, já provei tudo quanto é sabor e não, não me convence.
      Temos muita tendência para não perceber quem não aprecia aquilo que achamos muito bom, mas acredite que jamais teceríamos uma opinião tão assertiva sem mais conhecimento do que aquele que nos proporciona uma única visita …
      Obrigada,volte sempre!

      • Anónimo diz:

        Olá Ana!

        Não era minha intenção sugerir que esta teria sido a única visita à Santini, mas como indicou não ser fã de gelados de fruta, poderia não ter experimentado os gelados de Morango e Framboesa e, aí sim e na minha opinião, valeria a pena o esforço.
        Dado que já os experimentou e não gostou, a minha recomendação fica desde já sem efeito – como disse e bem, não temos todos que gostar do mesmo, não obstante sermos capazes de reconhecer a sua qualidade intrínseca, e ainda bem que assim o é. Como apaixonado que sou pela nossa gastronomia, que considero uma das melhores do mundo, sigo atentamente as vossas reviews desde o início e, naturalmente, concordo com umas mas discordo de outras – nestas coisas da comida, como aliás em quase tudo na vida, a nossa experiência, sensibilidade e até herança cultural influenciam e muito os nossos gostos.

        Renovo os votos de um bom trabalho, continuem a divulgar bons poisos!

        DF

        • Ana Andrade Ana Andrade diz:

          Mea culpa: acho muitas vezes que estou a ser claríssima e, no caso, nem por isso.
          Quero com isto dizer que, quando escrevo que o nosso problema é mesmo com a oferta da Santini, e porque a Santini é (re)conhecida primordialmente pelos seus sabores de fruta, pensei que ficasse subentendido que é esse género que não apreciamos.:)
          Muito obrigada pela troca de ideias (adoramos trocar cromos sobre comes e bebes – e sobre o resto também!), apareça mais vezes, é sempre um prazer poder partilhar experiências.
          Até breve!

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