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Casa do Pescador | Afurada | Carapaus de Comida

É curioso: a pessoa mora por cá há carradas de tempo, até gosta de comer, e foi preciso ter a visita de umas amigas do Funchal para ir conhecer a Casa do Pescador, de que rapidamente me fiz fã empedernida – de tal modo que voltei, uma semana depois. Na verdade, a TL e a ZL tinham conhecido o estaminé uns dias antes, quando lá foram com o R e a C – e gostaram tanto que arranjaram forma de me levar lá (e à MAA e à MNG também), para um magnífico repasto feminino, à hora de almoço, a meio da semana.

Aquando da primeira visita, elas haviam ficado na esplanada, desfrutando daquele sol primaveril que nos visitou no final de fevereiro; infelizmente, quando fomos as cinco já São Pedro não estava tão generoso, e tivemos que ir para dentro – o espaço não é de todo bonito, mas tem a particularidade de estar decorado de forma muito típica, seja com uns quadros de estilo muito kitsch, seja com retratos de antepassados, seja com um punhado de fotografias de Luís Filipe Meneses (juro!) e outras, inclusivamente uma de João Paulo II. Também lá há um altar, que me pareceu apropriado, por estar em causa uma típica zona de pescadores e uma casa cujo nome não engana.

Uma vez chegadas (as condutoras ainda tiveram de dar uma volta ao quarteirão, para estacionar), fomos imediatamente direcionadas para uma mesa, pelo mesmo funcionário que havia atendido as minhas amigas uns dias antes: o Vasco merece ser nomeado, por se tratar de um empregado exemplar, tanto na eficiência como na eficácia e (pasme-se) na simpatia genuína e bem-disposta.

À nossa espera (de quem chegou uns minutos mais tarde) havia já um cesto de bom pão, azeitona galega e um prato de mexilhões com molho de azeite, cebola e pimento que estavam de chorar por mais: saborosos e carnudos, no ponto em termos de cozedura. Em poucos minutos, juntaram-se-lhes umas das melhores pataniscas que estas papilas gustativas já provaram: gordas, ótimas de bacalhau e cebola, acabadas de fritar, estaladiças e sem gordura, foram uma das estrelas da tarde.

A acompanhar isto tudo um Esteva tinto e muitos queixumes, que auguravam a incapacidade de ingerir a dose e meia de lulas que aí vinha, por mor de um estômago já lotado. Esta vossa criada, já se sabe, tendo uma carrada de defeitos, não sofre de cobardia gastronómica, pelo que assegurei que nem uma lulinha restaria no prato, no final do banquete – e assim foi, ainda que dose e meia fosse mais do que bastante para cinco pessoas, sobretudo das que enfardam entradas sem medos.

As lulas grelhadas vêm muitíssimo bem acompanhadas, com batata “a murro” (as aspas são porque parece estar na moda esquecer o gesto que dá nome ao prato: o tubérculo surge redondinho e intocado, como se fosse abuso espetar-lhe um pêro bem dado), cenoura aos cunos, couve branca salteada e bróculos al dente – tudo em vasto prato de barro vermelho, como se quer. Os bichos estavam rijinhos e macios e foram paulatinamente deglutidos, sem que sobrasse um só tentáculo para contar a história.

Nesta altura, já quase rebolávamos, mas antes morrer enfartadas do que sair dali sem comer um docinho, pelo que, depois de debate sério, lá vieram, de entre os doces caseiros à disposição, uma mousse de chocolate “muito boa” (como enfaticamente a adjetivou a MAA) e quatro generosas fatias de nuvem doce, um bolo que partilha os ingredientes com as tradicionais natas do céu, e que agradou a todas (apesar de mais queixumes, devidos ao imenso tamanho das doses).

A conta, aquando desta primeira incursão, saldou-se nos pouco mais de 15€ por estômago, o que é extraordinário, tendo em conta o que ali se comeu. Também por isso, mas sobretudo porque ouvimos maravilhas sobre o arroz de marisco, que foi classificado como um dos mais completos que se havia provado, eu, a MAA e a MNG resolvemos voltar, uma semana depois – obviamente, só para que eu pudesse escrever uma posta mais completa e rigorosa, jamais devido à gula.

Desta segunda vez, o sol era muito, mas não batia do lado da rua onde mora a esplanada da Casa do Pescador, pelo que fomos lá para dentro de novo – sendo imediatamente saudadas pelo Vasco, como se fôssemos clientes da casa (e se isto não é o melhor cartão de visita, então não sei o que será). Íamos filadas no arroz de marisco e foi isso mesmo que pedimos, mas não pudemos deixar de começar por umas belíssimas pataniscas, acompanhadas por vinho de pressão da casa. O pão desta vez não estava grande coisa: achei-o seco e não fui por ali.

Caríssimos, e se vos disser que meia dose de arroz de marisco chega à vontade para quatro pessoas (com direito a servirem-se bastas vezes e tudo), por apenas 18€ (ou seja, 4,5€ por estômago)? E se acrescentar que o difícil é mesmo encontrar arroz, que aquilo tem tanto marisco (gambas, lagostins, patas de sapateira e de outro bicharoco que não identifiquei, navalheira, amêijoa e mexilhão) que é difícil encontrar os bagos? Pois. Se pensarmos assim, é mais barato ir à Casa do Pescador do que ao McDonald’s – o que não deixa de ter a sua graça.

Como curiosidade, o arroz de marisco é feito com ervilhas, coisa que nunca vira em prato similar, mas que não destoa (embora eu não seja de todo fã da leguminosa); infelizmente, também tem alguns pedaços de delícias do mar, o quer era perfeitamente evitável – não são muitos e não incomodam, mas para a coisa ser perfeita deveriam estar ausentes e pronto. Evidentemente, não conseguimos comer tudo, apesar dos esforços de todas: eu servi-me umas 5 ou 6 vezes e as minhas acompanhantes umas 3 vezes cada uma.

Claro que poderíamos evitar as sobremesas, como gente equilibrada, mas o prazer do risco está-nos no sangue, pelo que para a mesa veio: um molotov, curiosamente servido sob a forma de uma torta, que agradou muito; uma tarte merengada de limão, que não corresponde exatamente à receita tradicional e era mais doce do que se esperava (mas foi gabada); e um cheesecake absolutamente banal, em jeito de semi-frio desenxabido, que só aconselho a quem não aprecie (como eu) o cheesecake com (imagine-se a audácia) sabor a queijo.

No final? Cerca de 14€ por estômago e, mais uma vez, uma belíssima dose de bons apetites, numa Casa a que voltarei, certamente, muitas vezes.

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Casa do Pescador | Vila Nova de Gaia

Morada: Rua Vasco da Gama, 18, Afurada
Localidade: Vila Nova de Gaia

Telefone: 227 813 077
Horário: Seg e Qua – 07:00 às 11:30 e 12:00 às 15:30 | Ter, Qui a Dom – 12:00 às 15:30 e 19:00 às 23:00
Aceitam reservas? Sim

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“Carapau Graúdo” — seria isto que se leria em letreiro, escrito à mão, com letras gordas, se por ventura nos anunciassem num qualquer mercado. Era véspera do primeiro aniversário do projecto Carapaus de Comida e, por coincidência — normalmente escolhemos o estaminé a visitar na própria semana da incursão — caiu-nos no prato uma chafarica de marisco, do qual gostamos pouco, gostamos. O Restaurante A Cabana já nos havia sido recomendado há bastante tempo por uma seguidora assídua dos Carapaus, pelo que decidimos não adiar mais a visita. Juntaram-se a nós — AV e AA — os habitués DB, RC e BC, a (também ela fundadora dos Carapaus) RV, além da SC — que já nos havia acompanhado na incursão à Casa d’Avó Micas — e da AC, única estreante nestas andanças. O Restaurante A Cabana fica na Apúlia, na marginal, juntinho ao mar, e o caminho que se faz para lá chegar pode não ser fácil para quem não conhece a zona, como foi o nosso caso. Nada que não se resolva com recurso à tecnologia. Carapau que é Carapau chega sempre ao seu destino, mesmo que seja fazendo batota. Read more