Quatro Dias e Meio em Lisboa | Carapaus de Comida

Restaurante

Quatro Dias e Meio em Lisboa

21 Ago , 2017   Galeria

Dia 1 – quarta feira, 2 de agosto de 2017

No primeiro dia, cheguei já depois de almoço (mas sem ter almoçado) e, depois da minha boleia do Oriente para o Chiado (onde ficaria nos próximos quatro dias), achei por bem tratar de repor calorias até à hora do jantar – a única coisa que havia marcado para aquele dia. Antes mesmo de ir deixar as bagagens ao alojamento, entrei no Botequim Brasil, um “boteco” com a melhor limonada de sempre (feita na liquidificadora, e com limão inteiro, não apenas o sumo), que pedi sem açúcar – um copo grande custa 2€. Também tem produção própria de pasteis salgados à moda brasileira (que ouvi serem bons, aos vizinhos de outras mesas), pão de queijo e boas saladas. A decoração mantém as madeiras antigas e é charmosa, os donos são simpáticos e vale a pena a visita, também pela possibilidade de provar os sabores do Brasil, que nem sempre são fáceis de encontrar por cá.

Quando viajo para onde quer que seja, nunca planeio grande coisa de antemão, com uma exceção: os sítios onde quero ir comer. Antes desta estada em Lisboa, fiz o TPC da ordem e decidi de imediato que a Bottega Piadina seria um dos sítios a visitar, tanto mais que ficava pertíssimo da rua onde estava alojada. Confesso que este estaminé de comida de rua italiana (assim se apresenta) superou as minhas expectativas e proporcionou-me um almoço à hora do lanche absolutamente maravilhoso. Gostei muito do espaço, que é charmoso e tem várias mesas (e bancos) altas, para além de uma esplanada, de onde se observa a movimentação da rua, o serviço é competente, simpático e merece aplauso, e minha piadina (a Mare, por conselho competente de quem me atendeu, porque não queria nada de muito pesado) estava de comer e desejar muito mais: quente, a escorrer queijo e carregada de salmão. A limonada é servida sem açúcar, como deveria ser em todo o lado (quem pretender, pode sempre adicioná-lo), tudo é rápido e eficiente e não prometo ir embora sem cá voltar. Do melhor que já vi, em estabelecimentos desta linha.

Tendo a não adorar cafés e restaurantes nos sítios mais turísticos da cidade e o Café Gelo, em pleno Rossio, acaba por ser daqueles sítios para-turista-ver. Passo para comprar uma água e, sobretudo, os copos com fruta cortada ou os sumos de fruta frescos do dia, que são muito bons. Os bolos têm bom ar, mas nem sempre estão frescos e o pão, que nunca comprei, será do mesmo género. Vale pela esplanada (gosto de ver quem passa, quando estou com tempo), pelos sumos e pela fruta.

O jantar já estava marcado há meses, com duas amigas que me levaram ao Italy Café – Lisbona: come-se muitíssimo bem neste espaço sito no Saldanha, que é dos melhores e mais genuínos que me foram dados a conhecer fora de Itália. Começámos com uma Burrata, para entrada, servida com pão de massa de pizza e presuntos cortados em fatias fininhas (coisa deliciosa!), e depois nenhuma de nós conseguiu não pedir a Pasta Alla Forma, uma maravilha de um esparguete envolvido num parmesão gigante, com presunto e cogumelos, feito mesmo ali à nossa frente, o que atiça ainda mais o apetite. Para sobremesa, aconselho vivamente o Semifredo Altorroncino com Cioccolato Caldo, se bem que os Cannoli também são boníssimos. Os preços não são baixos, mas são perfeitamente justos para o que se come e para a mestria do serviço. Só achei o espaço demasiado barulhento, o que me incomoda.

 

Dia 2 – quinta feira, 3 de agosto de 2017

Começamos a ter concorrência para a Padaria Portuguesa, tanto na oferta como na qualidade, com a diferença de que a Padaria do Bairro do Chiado (há mais três, pela cidade), a meia dúzia de passos da concorrente, tem um ar mais bonito e um ambiente mais tranquilo (ainda que igualmente atarefado.
O pão de deus é um sonho (fresquinho, quase húmido, por causa do doce de ovos) e a padaria tem muitíssimo bom aspeto, para além de uma imensa variedade. Depois deste primeiro dia, em que comi só um pão de deus, bebi um café e comprei uma água, haveria de voltar no sábado, com a família, para um pequeno almoço mais completo: o pão de alfarroba e o de mistura são muito bons, e a merenda também se aconselham. Sumo de laranja como deve ser, serviço simpático e uma sala enorme, que acomoda muita gente.

O almoço deste dia foi num dos mais badalados e consensuais restaurantes de Lisboa:  o Pistola y Corazón Taqueria apresenta uma excelente relação qualidade/preço para um restaurante mexicano cheio de pinta. Ao almoço, o menu com as entradas (quesadillas), três tacos à escolha, uma água aromatizada e café fica por 9€. Claro que nos juntámo-lhes uns cocktails (comia mexicana sem marguerita nem sequer sabe bem, na minha humilde opinião) e o bolo de três leites (divino e bem doce, não será para todos os palatos), e a conta foi mais puxada, mas não tem de ser. Palminhas para o serviço cordial e rápido e para a decoração de bom gosto. Único senão: quando cheio (o seu estado normal), é mesmo muito barulhento, o que me deixa com os nervos em franja.

No início da tarde, já na subida para o Príncipe Real, entrámos no The Decadent, um bar de hotel simpático, num patiozinho tão tipicamente lisboeta, numa zona de que gosto particularmente, onde fomos apenas para nos refrescarmos com uma água, numa tarde das bem quentes. Também serve refeições rápidas (devíamos ser as únicas nacionais e as únicas que não estavam a almoçar tardiamente) e apeteceu-me voltar para o brunch.

Acho que nunca entrei num estaminé que cheirasse tão bem como a chocolataria Bettina e Niccòlo Corallo: as tabletes de chocolate e outras iguarias são ali fabricadas e o aroma não engana – estamos no paraíso. Pude provar, graças à simpatia de quem mos ofereceu, o de leite com avelãs, o de sésamo e o de pimenta com flor de sal, e embora tenha um fraquinho por este último, devido às minhas preferências pessoais, todos são do melhor que já me foi dado a provar. O espaço também é bonito e intimista, com a luz de Lisboa e entrar pelas montras grandes. Uma delícia, nem que seja só para tomar café.

Dia 3 – sexta feira, 4 de agosto de 2017

Numa das ruas mais turísticas de Portugal, a Rua Augusta, o Paul, pastelaria de inspiração francesa (e com preços a fazer lembrar os que se praticam em Paris) tem pão e bolos com muitíssimo bom aspeto, melhor inclusivamente do que os sabores. Percebo, mas irrita-me que os valores cobrados sejam mais altos para quem escolhe ficar (a alternativa é comer de pé, na rua, ou enquanto se caminha, o que não adoro). Creio que um espaço destes beneficiaria de uma localização mais sossegada. Ainda assim, e apesar da profusão de gente a entrar e a sair, apreciei a minha tarte de morangos e o café duplo.

Parece que o Boa-Bao é relativamente recente em Lisboa e só tenho a agradecer a quem me levou lá: que estaminé absolutamente delicioso! Fica no Chiado mas ligeiramente afastado da confusão, tem uma decoração fantástica, um ambiente muito agradável, o serviço é lesto e conhecedor (gosto quando peço conselho e mo sabem dar), e a comida… adoro boa comida asiática e devo dizer que tudo o que aqui provei é fantasticamente cozinhado, saboroso, surpreendente e original, e, pesem embora todos os outros do género já visitados, em Portugal e no estrangeiro, não tenho dúvidas em ele ver o Boa-Bao como sendo do melhor onde já entrei. Recomendo vivamente, tanto aos locais como aos visitantes.

Tinha muita curiosidade em conhecer aqueles que muitos dizem ser os melhores hambúrgueres de sempre – e já percebi a fama do Ground Burger: fomos passear aos jardins da Gulbenkian e aproveitámos a hora para ir jantar sem chatices (depois das 20h é difícil, e eles não fazem marcação, pelo que seriam umas 19h40 quando assentámos arraiais). Os ingredientes são fantásticos, a carne (de Angus, como é anunciado à porta) é mesmo muito boa, mas não gostei do pão (demasiado “abriochado” para o meu gosto, embora fresco e ali fabricado). A quantidade é normal, mas não mata a fome a apetites mais vorazes. As batatas fritas são ótimas, bem como a salada. Preços puxadotes, que são justificados certamente pela qualidade, mas não pela quantidade. Têm cuidado e atenção para com crianças pequenas, o que é sempre de louvar.

Já o disse várias relativamente a todas as Padarias Portuguesas que visitei e o mesmo digo em relação ao estaminé de Alvalade: não faço parte da equipa que as acha uma coisa sem alma e, pese embora continue a achar estranho ter uma em cada esquina, aprecio que, quando tudo falha, haja uma em cada esquina. Aqui, perante uma fila insuportável numa geladaria vizinha (a Conchanata, a que acabámos por não ir), valeu-nos o brigadeiro (algo seco, às nove da noite) e a maravilhosa tarde de lima com base de Oreo, para acompanhar os cafés e matar o desejo de doce.

Dia 4 – sábado, 5 de agosto de 2017

Gostei infinitamente mais deste Príncipe Real, restaurante/café à beira-mar plantado, na Lagoa de Albufeira (Sesimbra) do que estava à espera: muito bem que a fome ajudou, mas a conveniência de sair da praia e ir comer um choco frito (que estava mesmo muito bom) com excelente batata frita e mais uns petiscos (omeleta bem servida, bitoque tenro), terminando a experiência com uma bola de Berlim com recheio de chocolate, é impagável. O creme de legumes é surpreendentemente bom. O serviço é um bocado demorado a todos os níveis (o pagamento foi dos mais lentos de sempre), mas é simpático e voltarei por certo, sempre que regressar à Lagoa de Albufeira (mesmo porque não há muita concorrência, mas de todo o modo, gostei).

Comemos muitíssimo bem no Alcochetano, o único dos vários estaminés de Alcochete que pôde receber quatro almas esfaimadas, mas nada previdentes (não marcámos mesa, esquecendo-boa de que a espontaneidade está démodé), depois de um dia de praia. Atacámos os percebes mais frescos que comi nos últimos tempos (embora trouxessem muita rocha agarrada, que também se paga), o entrecosto grelhado estava ótimo, bem como o peixe-espada e os linguadinhos (queria lulas, mas já não havia, assim como as conquilhas). Surpresa também constituíram as sobremesas: quer o bolo de bolacha de chocolate quer o cheesecake de frutos vermelhos eram caseiros e muito recomendáveis. O serviço é típico de um restaurante do género: sem salamaleques, mas despachado, e até havia música ao vivo (que eu, pessoalmente, dispenso quase sempre).

Dia 5 – domingo, 6 de agosto de 2017

Quem conhece a Pastelaria Alcoa original, em Alcobaça, só se sente defraudado pelo tamanho deste estaminé no Chiado e, no entanto, absolutamente agradecido por ter os bolinhos e pasteis que me faziam parar, de cada vez que por ali passava, de Coimbra para as Caldas da Rainha. Chateia-me que não haja mesas e cadeiras (a modernice do comer-em-pé ou on-the-go nunca me convencerá) mas os doces conventuais (e outros) merecem sempre a pena, ainda assim.

O brunch do Museu do Oriente é muitíssimo simpático, num espaço com vista privilegiada para o rio Tejo (contentores incluídos): as opções gastronómicas são inúmeras e (algumas) originais, a reposição é constante e o serviço incansável, apesar da lotação esgotada constante. Há escolha para vegetarianos, para a malta do fit e para quem gosta de enfardar como deve ser. Adorei os ovos mexidos, as chamuças verdes, os queijos e os mexilhões, e gostei de tudo o mais. As bebidas variam entre a água, a limonada, a sangria e o vinho (refrigerantes são pagos à parte). Para quem tem crianças, há um espaço que os entretém. Só não tem cotação máxima porque, em vez de abrir ao meio dia, como deveria ser, abriu 35 minutos depois, e não houve sequer direito a uma explicação.

Na Artisani de Alcântara, sita nas Docas, os gelados são bons (e têm opções para diabéticos e celíacos, o que nunca é de somenos) mas, nesta localização em particular, junto ao Tejo, tudo me sabe particularmente bem, nem que seja só um café e uma água. Em dias de calor, a sombra das palmeiras dá um imenso jeito – e deixam-nos sentar nos confortáveis sofás de verga da República da Cerveja, em vez de nas cadeiras de plástico da geladaria.

Já mesmo na iminência do regresso, o Ardina Caffé, em plena Gare do Oriente, foi o último estaminé que me matou a sede –  e longe vai o tempo em que os “cafés de estação” eram sítios tétricos e tristonhos: hoje em dia é possível esperar por um comboio com conforto estético e, até, do palato. Aqui, para além das bebidas comuns, há bolos com bom ar, tostas, sandes e saladas que matam a fome a quem vai ou vem de viajar. O serviço não é muito simpático, mas é despachado e o nome deve-se ao facto de no mesmo espaço morar um quiosque de venda de jornais e revistas.

Data da Visita: 2 a 6 de Agosto de 2017

 

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Ana Andrade

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Agridoce, de tempero forte e gargalhada salgada.
Ana Andrade

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