Petiscos

Um Museu (dos Presuntos) que não fez história

18 Mai , 2012   Galeria

Foi um palpite de última hora: em mês dedicado aos petiscos lusos, recebemos uma dica, adiámos o tasco que tínhamos agendado para a semana e, na passada quarta-feira, dia quente, a cheirar a Verão, fomos visitar o Museu dos Presuntos, na Rua do Padre Luís Cabral (perto do antigo Pop, por trás do Hotel Boa Vista), onde, sobretudo durante a semana, o estacionamento não é, de todo um problema. Toda a zona é castiça e ajuda a disparar a escala de expectativas, sobretudo porque se trata de um estaminé que só abre para jantar, encerrando às 4h da manhã, o que lhe aumenta a aura.

Restaurante Museu dos Presuntos | as torneiras-saxofone

As torneiras-saxofone

Dois terços de nós já conhecíamos o local, embora não o visitássemos há uns bons 4 ou 5 anos (noite dentro, em busca do entrecosto a que no Norte se chama costelinhas e outros petiscos, bem como da farta mesa de sobremesas, tipo buffet) – e a verdade é que, passado este tempo todo, com mudanças de gerência pelo meio, o único factor constante é mesmo o conceito e o  espaço. E se um espaço não é é difícil de manter (e a decoração é mesmo o elemento mais positivo – se não o único – desta incursão, com toda a parafernália de bugigangas, dignas de uma feira de antiguidades e originalidades), é com relativa facilidade que se deturpa um conceito que tudo tem para ser vencedor.

Mas inciemos o relato pelo espaço: à entrada, um balcão e duas mesas, ao que percebemos para os que esperam. E nós esperámos “que a mesa fique pronta”, como nos deu conta a empregada que nos recebeu (oferecendo uma bebida ao RC e à DB, os primeiros a chegar, e ignorando os restantes quatro comensais, pouco depois), quando interpelada por que nos mandara sentar ali, se havíamos feito reserva com mais de 24h de antecedência. Os modos com que se nos dirigiu foram sempre o de quem está a prestar um grande serviço à humanidade unicamente por estar viva, o que me pareceu um nadinha extravagante, se pensarmos que, como profissional, a atitude nos pareceru desadequada, para dizer o mínimo – o que veio a confirmar-se quando, à maneira de quem comanda um pelotão de seis (os três Carapaus, os já nomeados RC e DB e a IP), nos ordenou que entrássemos na sala principal (local que alberga, se bem acondicionadas, umas dezenas largas de pessoas), porque a mesa estaria (finalmente) pronta.

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Nesta altura, alguns de nós (ou eu, vá, que sou uma fácil) já estariam dispostos a perdoar a rudeza de quem nos recebera: quando a comida é muito boa, a memória fica um nadinha afectada. Mas a senhora que nos acompanhou à mesa (seria gerente do restaurante? uma mera empregada sem modos?!) ainda tinha na manga a estocada final: “os cabelos compridos para este lado, os curtos para aquele”, bramiu, sem uma única explicação. Percebemos (porque Carapau é atento e tem neurónios dos bons) que tal ordem se deveria à proximidade com a mesa das sobremesas (estupidamente desfalcada, o que nos fez decidir desde logo que iríamos pregar para outra freguesia, na altura dos doces). Ora isto levanta pelo menos duas questões, a saber: se tivéssemos todos cabelo comprido, será que nos sentaria aos seis de um dos lados da mesa, para evitar cabelos a aterrar em meio cheese-cake, três fatias de tarte com aspecto paupérrimo e uma salada de frutas em que ninguém tocara ainda? Por outro lado: onde é que esta senhora terá aprendido boas maneiras e bom senso? Será uma auto-didacta? Ficam as questões no ar e agradecemos a qualquer membro do Cardume alargardo que nos possa esclarecer que o faça, por favor (confessamos a nossa incapacidade para perceber gente que vive de agradar clientes e não só não agrada como hostiliza).

Restaurante Museu dos Presuntos

A sala

Centremo-nos agora na paparoca, que era ao que íamos: escolhêramos previamente o “Menu Tapas”, que custa 12€ e permite que comamos os petiscos nele incluídos à descrição (sendo que esta informação já a trazíamos de casa, uma vez que ninguém no-la fez saber). Já na mesa, aguardava-nos uma salada de polvo (média: agradável mas não fabulosa), umas tostas com algo de indefinido em cima (seria uma tentativa de paté de qualquer coisa?), azeitonas muitíssimo saborosas, pão tipo regueifa cuja frescura já se fora há muito, fusilli com pimentos e um toque de parmesão (agradável, como acompanhamento, mas dificilmente aceite como petisco), presunto, grão de bico com cebola e salsa (não aprecio grão de bico mas deve ter sido dos pratos mais saborosos que nos apresentaram), e chouriço para assar, já com o lume perigosamente aceso (uma vez que não nos sentáramos ainda e a distância para a mesa das sobremesas era, como já referido, diminuta). E foi no final da assadura (a nosso cargo, bem entendido) que se dá outro dos episódios mais marcantes da noite: ao meu pedido para retirar o assador de alumínio, que limitava os movimentos do RC e do AV (para evitarem queimar-se) responde o empregado (já outro, mas igualmente inexistente, como verão): “Tiro já, quando estiver menos quente” – ou seja, sua excelência não pode sequer pensar em queimar-se (terá ouvido falar de panos ou pegas?) mas pode perfeitamente sujeitar os clientes a correrem esse risco, pois claro.

Confesso que, nesta altura, eu já rosnava, o que fez deste o jantar menos descansado e mais stressante (para além de, certamente, o mais pobre) de toda a história dos Carapaus. Continuaram a vir umas quantas (supostas) iguarias: camarão cozido (saboroso mas quente), alheira (algo farinhenta e tão queimada que metade ficou agarrada ao recipiente de barro onde assara), pimentos padron (sem sal, senhores, sem sal!!!!), cogumelos (de lata, sem tempero nem sabor) e calamares (congelados, ora pois, mas bem fritos). E acabar-se-ia aqui o repasto se não tivéssemos feito o TPC: se era à descrição, e apesar da pobreza das opções comeríamos mais, pois claro. E foi nesta altura, quando o mesmo empregado me fez escrever por extenso o que já havia assinalado num papelucho com as várias opções, que da minha cara (sou transparente, nada a fazer) devem ter saído faíscas de raivinha mal contida, pelo que nos contemplaram com mais um petisco (que anteriormente não fazia parte do menu mas passou a fazer): moelas, que se apresentaram razoáveis – confesso que, nesta altura, dificilmente consideraria mais do que razoável o que quer que me trouxessem, dada a atitude de quem nos servia.

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Infelizmente, os disparates não acabaram aqui: dada a nossa confessa preferência por cerveja, estivemos a finos toda a refeição, mas nem estes nos agradaram: mal tirados, pouco frescos, um perfeito desconsolo. Vai daí, a Carapaua RV decidiu pedir uma Coca-Cola: “Zero”, especificou. O empregado veio de lá de dentro com um copo idêntico aos nossos (de meia de leite), com um líquido que tinha tudo para ser Coca-Cola, mas não havia meio de o certificar. A RV fez notar isso e voltou a interpelá-lo no sentido de saber se era Coca-Cola e ele reafirmou-o, negando-se, contudo, a trazer a garrafa ou lata para a mesa. O mesmo sucedeu aquando de um segundo pedido da mesma bebida: praticamente certa de que não era Coca-Cola (pelo sabor), o fulano nem sequer se dignou a compensar o mau serviço anterior. Percebemos então que não poderia: porque não era Coca-Cola e porque estariam a servi-la, provavelmente, de garrafa de dois litros. Deve ser da crise (como tudo, hodiernamente).

Foi, portanto, absolutamente desconsolados, uns, e maioritariamente zangados (outros), sendo que  eu estava com um pé em cada grupo, que pedimos a conta: cerca de 19€ a cada um (o JC apareceu mais tarde só para um caldo verde e pagou à parte) por comida fraquinha (para ser simpática) e serviço medíocre, sem sobremesa, pareceu-nos uma extravagância; que, a adir ao facto de não haver terminal de multibanco e o pagamento ter de ser feito em dinheiro (o que nos tem acontecido demasiadas vezes), foi o golpe final. Pela primeira vez em já três meses e meio de incursões, não deixámos um cêntimo que fosse de gorjeta.

Cremosi | os gelados

Sabores de gelados na Cremosi

Fomos, portanto, afogar as mágoas para a Cremosi, na marginal de Matosinhos, quase em frente ao Lais de Guia. Trata-se de uma gelataria aberta recentemente, filial de uma outra, no centro do Porto, junto ao Piolho, na qual nenhum de nós alguma vez entrou. E aqui sabíamos que não haveria margem para erro: eu já lá havia estado, os gelados são caseiros (foi-me apontado o senhor que os faz, da primeira vez), tem sabores originalíssimos (tangerina, bolacha maria, Oreo, Rocher e Nutella, entre outros), cones cobertos de chocolate do meio para cima (com duas bolas de gelado, pouco mais de 2€), crepes fininhos e deliciosos (com chocolate quente e uma bola de gelado, 4€ e qualquer coisa) e um serviço simpático (já não exigíamos muito mais, com franqueza…) e possui uma esplanada protegida do vento onde, sobretudo de dia, se está muitíssimo bem, seja Verão ou nem por isso.

E assim tentámos atenuar o desagrado com um jantar que foi unanimemente considerado como o pior da nossa curta (mas intensa) história: não só não voltaremos a pôr lá as escamas como desaconselharemos vivamente o restaurante Museu dos Presuntos a alguém que, como nós, pretenda lá ir petiscar (uma vez que também lemos que servem – ou serviram, sei lá bem – bons pratos de caça). Valha-nos a sempre perfeita companhia e a boa disposição (e até mesmo essa ontem, vacilou, por momentos).

Até breve, com uma posta (esperamos) bem mais simpática.
E, entretanto, bons apetites!

Museu dos Presuntos

Morada: Rua Padre Luís Cabral 1070, Porto
Telefone: 226 106 965
Horário: Ter e Qua – 19h00 às 02h30 | Qui a Sáb – 19h00 às 04h00 | Dom – 19h00 às 02h00
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Ana Andrade

Ana Andrade

Agridoce, de tempero forte e gargalhada salgada.
Ana Andrade

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